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O termidor do PSL

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No campo da Filosofia construída pelos gregos, há 2500 anos, que baliza o pensamento ocidental, nada parece tão incompreensível quanto aquilo que se convencionou chamar de antinomia. As antinomias abarcam conceitos opostos para sua formação: é impossível conhecer o branco sem a percepção do negro; ou o milagre da luz sem a definitiva ameaça da sombra. O extremo é quando uma só categoria alberga o ser e a sua negação. Assim, por exemplo, é o direito que, a um só tempo, é ele (o lícito) e o seu oposto (o ilícito). Sem essa duas dimensões antagônicas é impossível compreender o direito. Uma antinomia perfeita.

No entanto, há categorias que não admitem antinomias, porquanto suas condições de existência impõem a distinção. Assim, são os partidos políticos, esses vetores imprescindíveis ao ambiente republicano, sobretudo, ao chão democrático. Aliás, impossível pensar a democracia sem a convivência – e não apenas a tolerância – de contrários. Essas porções antagônicas no campo político são aquilo que, hoje, se conhece como “partido”, cuja característica principal é a unidade de concepção filosófica e prática políticas.

Claro, numa visão bem primaria, partido significa uma parte do pensamento e da práxis de um grupo socialmente definido. As diferenças de concepção e práticas políticas, todavia, são comuns na vida partidária que, após submetidas ao mecanismo democrático interno redundam na prevalência do princípio da maioria para ‘harmonizar’ a posição final, nos planos políticos e ideológicos, de cada partido.

Essas noções básicas são rememoradas na tentativa, decerto inútil, de compreender a enorme crise política que, ao lado de tantas outras artificial e amadoristicamente criadas, assolam o governo Jair Bolsonaro e o seu partido, o PSL (Partido Social Liberal).

Depois de borboletear por cerca de nove partidos políticos, Jair Bolsonaro buscava uma nova agremiação para veicular sua candidatura à presidência da República e que pudesse ser chamada de sua. E como ele tinha uma improvável eleição, os nanopartidos políticos procurados não lhe deram guarida, a não ser o PSL, que recebeu um enorme contingente de filiados de extrema-direita, inclusive militares. Na esteira do fenômeno Bolsonaro mais de uma centena de neófitos na política, sobretudo, militares das Forças Armada, polícias militar e judiciária, tiveram eleições impensáveis para o Congresso Nacional e Assembleias Legislativas estaduais. O PSL agasalhou a maioria deles e foi recompensado: mais do que decuplicou o número de filiados eleitos, passando a deter a segunda maior bancada na Câmara Federal.

Esse crescimento proporcionado pelo ‘fermento Bolsonaro’, todavia, passou a ser uma inesgotável fonte de crises políticas, aliás, criadas em grande medida por Bolsonaro e seus filhos parlamentares, tanto que nos corredores dos ministérios, em Brasília, sedimentou-se rapidamente a noção de que “Bolsonaro não precisava de adversários”. Num indisfarçável pendor antinômico, ele e os seus ‘meninos’ passaram a fustigar dignatários, lideranças políticas e personalidades nacionais e estrangeiras, por vezes até países inteiros e certos organismos internacionais, neste caso com graves danos à política externa e às exportações brasileiras, resultado do fatal enlace da ignorância com o amadorismo. Mistura explosiva e não menos letal.

O que não se esperava era que esse crescimento exponencial do PSL, mormente diante da perspectiva de recebimento de quase 400 milhões de reais dos fundos partidário e eleitoral, desse causa a uma acirrada disputa pelo controle do partido, tendo de um lado o agressivo clã Bolsonaro e alguns deputados aliados; do outro, o deputado federal Luciano Bivar (PSL-PE) e seu aliados. Assim, o que começou com mera troca de farpas vem desaguando em agressões verbais cada vez mais graves, além de medidas retaliativas como a imposição do deputado Eduardo Bolsonaro como líder do PSL na Câmara Federal, que destituiu 14 vice-líderes ligados ao presidente nacional desse partido, Luciano Bivar.

Embora seja difícil de se prever como vai findar essa querela, é impossível se deter o racha partidário (que nada tem a ver com as tais “rachadinhas” praticadas por deputados estaduais do PSL, inclusive, Flávio Bolsonaro, quando membro da ALERJ…), e não causará surpresa que os Bolsonaro busquem abrigo noutra sigla, pois, além do grupo de Bivar deter o controle da máquina partidária, ganhou importantes adesões de “bolsonaristas de raiz”, a exemplo do senador Major Olímpio (PSL-SP) e da deputada federal Joice Hasselmann, ambos duramente “bombardeados”, via redes sociais, pelos filhos de Bolsonaro, com revides de iguais durezas, todos com graves baixarias e agressões pessoais.

De tudo, constata-se, que o movimento político que catapultou Jair Bolsonaro à presidência da República, algo impensável um ano antes, ademais de transformar o nanico PSL no segundo maior partido do Congresso Nacional, não foge a uma característica que marca essas bruscas e por vezes inesperadas manifestação do poder político: a da fase termidoriana. O que é isto? É a fase que sucede às da tomada e ocupação do poder, quando “a revolução engole seus próprios filhos”, usando o raciocínio que, na Revolução Francesa, designou o seu terceiro período (de 27 de julho de 1794 a 25 de outubro de 1795), em que os revolucionários mais destacados, os do Clube Jacobino (Maximillien Robespierre, Saint-Just e outros), depois de promoverem o terror, terminaram também guilhotinados. Na França revolucionária, até os nomes dos meses foram mudados: o Termidor (“thermidor”, em francês) era o décimo-primeiro mês do calendário. Assim, o 9 de termidor, que corresponde a 27 de julho de 1794, foi o início da reação burguesa ao mando jacobino no Comitê de Salvação Pública. Muitas cabeças jacobinas rolaram e restou a lembrança do termidor que, invariavelmente, ocorreu em muitos outros momentos da História, em épocas e latitudes diversas.

Qual foi o termidor da Revolução Russa de 1917: os processos de Moscou dos anos 1930, condenados no episódio conhecido como o “Grande Expurgo”, em que pereceram sob a tirania de Stalin alguns dos mais destacados revolucionários da “velha guarda bolchevique”: Nicolai Bukharin, Grigori Zinoviev, Lev Kamenev , além de muitos outros, condenados e fuzilados. Embora condenado à morte “in absentia”, em 1936, Leon Trótski, o mais importante adversário político de Stalin, foi assassinado no México, em 1940, pelo espanhol Ramón Mercader, agente da polícia secreta stalinista, dois anos após o assassinato de Leon Sedov, filho de Trótski, em Paris, este também julgado e condenado nos processos-farsa de Moscou. Aliás, foi Sedov que, em 1936, trouxe a lume a obra “O Livro Vermelho nos Julgamentos de Moscou”, uma vigorosa denúncia do terror stalinista.

Certo é que, em todos os grandes movimentos de conquista e manutenção do poder político é possível identificar a sua ‘fase termidoriana’, como uma sina triste e enfadonha presença. Invariavelmente.

E numa menor dimensão, dez meses do triunfo político de Bolsonaro e do seu PSL, eis que a maldição termidoriana já chega com força às suas hostes. Ainda bem que tudo é na base de desaforos, baixarias no tuíte e brigas por cargos de representação partidária. Nada de guilhotina é velados assassinatos, nem de sangrias desatadas, ao menos até agora. Todavia, entre Bolsonaro e correligionários a briga é de se medir a metro; de parte a parte, o cacete está a troar. E o indefectível Jair, em entrevista dada em Tóquio, fala ainda em “juntar os cacos” do PSL. Que cacos?

Na idade média europeia, um ilustre nobre castelhano chamado Bivar (Dom Rodrigo Díaz de Vivar, em português “Bivar” [1043-1099], também conhecido do “El Cid”), a despeito de vencer tantas batalhas e do desvelo ao seu chefe, o rei de Castela, Alfonso VI, foi desterrado de sua pátria e teve os bens confiscados, vítima que foi de intrigas palacianas. Irônico é que, dez séculos depois, nestas paragens tupiniquins, mais um súdito Bivar, que nem é El Cid nem nada heróico, caia na desgraça em face de seu atual ‘chefe’, Jair Bolsonaro que, no auge da crise política interna, resolveu empreender um longa vilegiatura de doze dias no extremo oriente, para esfriar as coisas. Enquanto isso, a novidade que Bolsonaro vai encontrar no retorno ao Brasil é o lançamento da candidatura à presidência da República da “Pepa”, alcunha pela qual é conhecida, no submundo de Brasília, a deputada Joice Hasselmann, lançada pelo próprio Bivar. Se não resolver a crise do PSL, Bolsonaro cogita criar um novo partido, o Partido da Defesa Nacional, de feição ultraconservadora. Vai sair fumacinha preta. E essa ópera-bufa vai continuar. É aguardar os próximos capítulos, “tá okay?”

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